O que aprendi vivendo na Amazônia

Artigo original publicado em português na Vida Simples.

Morando no maior bioma do Brasil, descobri a riqueza da nossa diversidade e compreendi os desafios envolvidos na preservação da floresta amazônica. 

A primeira coisa que a Amazônia me ensinou é que eu não sabia nada sobre ela, apesar de ter lido e aprendido na escola sobre esse imenso bioma, a maior floresta tropical do mundo.

Depois de quase cinco anos morando aqui — e mais três visitando frequentemente antes de me mudar —, aprendi que ainda tenho muito a aprender. Um fato que eu já sabia, mas só compreendi mais tarde, é que a Amazônia representa mais de 55% do território brasileiro. Você consegue sentir a gravidade desse número? O Brasil é mais Amazônia do que não Amazônia. 

Muitos podem não saber, mas a Amazônia não é apenas uma única floresta que abriga uma grande variedade de espécies. A Amazônia também é povo, história e cultura. Com seus diversos costumes, gastronomia e paisagens, a Amazônia é um mundo à parte que a ciência e as sociedades modernas ainda ignoram. Pense na quantidade de inovação e sabedoria que poderia ser descoberta na riqueza de suas florestas e rios. A ancestralidade e a tradição fazem parte da Amazônia, mas esse tesouro está sendo negligenciado, queimado e destruído.

Na Amazônia, tudo é imenso. Das formigas aos peixes, passando pelos rios, tudo aqui é grande. Moro em Alter do Chão, próximo ao rio Tapajós, que tem 20 quilômetros de largura, quase o tamanho de duas pontes Rio-Niterói. O próprio conceito de distância é diferente aqui. Visitar os vizinhos pode facilmente se transformar em uma viagem de 5 horas. Também gigantescos são o coração e a hospitalidade das pessoas da região. Aprendi com os povos indígenas lições sobre a vida, o desapego e o valor do descanso e do lazer — adaptar-se e viver com o que temos à disposição. São aprendizados para a vida toda, que vou guardar para sempre. Uma delas é sobre o tempo da floresta, um conceito difícil de colocar em palavras. Eu o descreveria como respeito pelo fluxo natural dos acontecimentos. Como alguém que se acostumou ao ritmo acelerado das cidades, esse aprendizado foi muito importante para mim — somente o que é valorizado é preservado.

Aqui, compreendi que o povo amazônico, sábio mas marginalizado, quer ser reconhecido. Assim como qualquer outra pessoa, eles querem se esforçar para estudar e prosperar. Muitos se consideram inferiores ou indignos, resultado de séculos de exploração e negligência por parte do resto do Brasil e dos antigos colonizadores. Esse desejo de visibilidade levou a uma visão equivocada do desenvolvimento. Na verdade, megaprojetos de mineração, rodovias e barragens hidrelétricas não trouxeram nada além de destruição e desigualdade para a Amazônia. 

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A Amazônia só será preservada se seus habitantes forem fortalecidos cultural, social e economicamente.

Sem boas políticas públicas que visem proteger os povos indígenas e alternativas socioeconômicas que gerem renda, o desenvolvimento sustentável (como a cadeia do açaí, que rende cerca de sete vezes mais do que a pecuária extensiva) não pode ser alcançado. Continuará havendo pessoas dispostas a desmatar a Amazônia e encher seus rios com mercúrio. Até mesmo os ambientalistas podem se tornar barreiras ao desenvolvimento, pois alguns podem querer manter a floresta em pé. Essa visão distorcida, resultado de uma narrativa calculada, torna a Amazônia um dos lugares mais perigosos do mundo para quem quer defender a natureza, lição que aprendi na prática, depois de ser preso por três dias por combater incêndios florestais, no caso do Brig do Alter do Chão, em novembro de 2019.

A Amazônia é fundamental para a vida no planeta. Seus serviços ambientais e climáticos são únicos e, sem ela, a vida como a conhecemos não seria possível.

Por isso, precisamos conhecer melhor a Amazônia e entender melhor o que querem as pessoas que vivem aqui. Acredito que só cuidamos do que amamos e só amamos o que conhecemos. E conhecer a Amazônia é sentir seu cheiro, ouvir suas canções, beber suas águas. Juntos , precisamos “amazonizar” o Brasil e valorizar a beleza da região, seu povo, suas culturas e seus produtos.

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Nesse intenso processo de “amazonização” que a floresta me proporcionou, aprendi que as maiores lições são sobre nós mesmos. Antes de vir para cá, eu era sócio-gerente de uma multinacional do mercado financeiro. Aqui, aprendi que a vida é como um rio: entramos nela e um dia vamos sair. Mas o rio seguirá seu curso e o que importa é o que fazemos enquanto estamos nadando nele. Muitas pessoas se afogam nesse rio, enquanto outras têm coletes salva-vidas confortáveis. E eu quero ser uma daquelas pessoas que estendem a mão para ajudar os outros.

Aqui, aprendi que não preciso de muito para ser feliz. E que o meu tempo é o meu bem mais precioso.

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Percebi que meu trabalho é meu tempo e minha energia. E, portanto, ele precisa ser dedicado a algo que faça a diferença no mundo.

Mais recentemente, após ser preso e fugir de casa por alguns meses, percebi que precisava me concentrar em onde poderia contribuir. Reconheci que meu conhecimento prévio do mercado pode e deve ser usado em favor da Amazônia. Ou seja, o que vivi no passado também pode me ajudar agora. Então, comecei a trabalhar com empreendedorismo social de impacto e a ajudar empresas em crescimento, que preservam a Amazônia e geram renda por meio da venda de produtos florestais não madeireiros, ecoturismo, entre outras atividades econômicas sustentáveis.

Sinto que muitas pessoas querem ajudar a Amazônia, mas não sabem como.

Muito se fala sobre consumo consciente e, embora seja fundamental refletir se nossas ações contribuem ou não para a destruição da floresta, aprendi que a maior contribuição que podemos dar à Amazônia somos nós mesmos: nosso tempo, nosso respeito e, acima de tudo, nosso amor pela vida na Terra.

Sobre o autor

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Marcelo Cwerner é gestor de portfólio na NESsT. É apaixonado por modelos econômicos inovadores, justiça social e sustentabilidade ambiental. Acredita que é importante buscar novas abordagens para a forma como vivemos em sociedade em resposta à emergência climática e à pandemia da COVID-19, apoiando as comunidades locais, as empresas sociais, a solidariedade e a economia circular.

Marcelo mora na Amazônia com sua família há quatro anos, em Alter do Chão, no estado do Pará. Antes disso, trabalhou por 12 anos no mercado financeiro (em bancos de investimento e empresas de consultoria financeira) em São Paulo. Quando se mudou para a Amazônia, Marcelo cofundou o Instituto Aquifero para realizar iniciativas de proteção ambiental e criou três empresas de turismo que receberam mais de 2.000 visitantes em quatro anos de atividade.