Nosso trabalho em campo na região amazônica do Brasil tem demonstrado consistentemente que o aumento da participação das mulheres é fundamental para que a sociobioeconomia se torne uma estratégia de desenvolvimento nacional robusta e sustentável.
A desigualdade de gênero é uma questão generalizada na maioria das sociedades ao redor do mundo, e as comunidades amazônicas não são exceção. Nas empresas de socioeconomia da região, as mulheres são frequentemente limitadas a papéis secundários, enquanto os homens são mais propensos a ocupar cargos de liderança e de contato com o público. Os homens também tendem a dominar as decisões comerciais e financeiras (Mello & Schmink, 2017), reforçando a falta de visibilidade e reconhecimento do trabalho das mulheres.
Esse padrão não apenas reflete desigualdades de longa data, mas também impede que o setor alcance seu pleno potencial de crescimento.
As evidências mostram consistentemente que as mulheres são essenciais para o sucesso das empresas de socio-bioeconomia na Amazônia. Desde 2015, NESsT empresas de socio-bioeconomia na região, onde as mulheres desempenham papéis vitais em toda a cadeia de valor, desde o cultivo até a comercialização, ao mesmo tempo em que apoiam a resiliência social e econômica mais ampla de suas comunidades.
Sua experiência abrange diversificação de culturas, manejo de plantas medicinais e produção de alimentos, todos essenciais para o uso sustentável dos recursos naturais. Ignorar sua contribuição significa correr o risco de perder esse valioso conhecimento sobre o uso de matérias-primas e a gestão ambiental (Mello & Schmink, 2016).
Fotos (da esquerda para a direita): Coopaflora, ATAICe ASSOAB © Bruno Kelly
Além disso, as mulheres costumam ser responsáveis por gerenciar o dobro da carga de trabalho, pois equilibram o trabalho agrícola com as responsabilidades domésticas e de cuidados. De acordo com a pesquisa “Outras Formas de Trabalho” da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), em 2022, as mulheres no Brasil dedicam em média 21,3 horas por semana às tarefas domésticas e cuidados, enquanto os homens dedicam apenas 11,7 horas — uma diferença de 73,5%.
Na região Norte, onde se localiza a Amazônia brasileira, essa diferença é ainda mais acentuada, chegando a 91%.
Além de sobrecarregadas e subvalorizadas, as mulheres são frequentemente excluídas dos processos de tomada de decisão, o que tem um impacto negativo no desempenho das empresas. À semelhança dos estudos de gênero sobre o tema, o trabalho NESsTna Amazônia, que apoia mais de 60 empresas, indica que os grupos de liderança compostos exclusivamente por homens muitas vezes carecem da diversidade de perspectivas necessária para impulsionar a inovação e o desenvolvimento sustentável.
Quando as mulheres estão envolvidas na governança florestal, os resultados tendem a melhorar, incluindo uma regeneração florestal mais forte e uma distribuição mais equitativa dos recursos. Seu conhecimento da biodiversidade local e das práticas sustentáveis é essencial tanto para a proteção ambiental quanto para a viabilidade a longo prazo dos sistemas agroflorestais (Conexus, 2024).
Os recursos ainda são insuficientes e mal distribuídos. Muitos financiadores priorizam grandes projetos e negligenciam pequenas empresas que têm grande potencial de impacto local.
Keivan Hamoud, da empresa ASSOAB, liderada por mulheres
Nas empresas de socioeconomia, as mulheres enfrentam não apenas a falta de reconhecimento, mas também obstáculos estruturais significativos, como o acesso restrito ao financiamento. Como compartilha Keivan Hamoud, da empresa NESsT , Associação dos Agropecuários de Beruri (ASSOAB), “os recursos ainda são insuficientes e mal distribuídos. Muitos financiadores priorizam grandes projetos e negligenciam pequenas empresas que têm grande potencial de impacto local”.
Ela acrescenta: “critérios rígidos de financiamento muitas vezes impedem que empresas comunitárias de alto impacto na Amazônia tenham acesso ao apoio de que precisam”. Essa barreira ao acesso prejudica a autonomia financeira das mulheres empresárias e limita as oportunidades de crescimento dos negócios.
Foto: Oficinas para mulheres na ABEX
A dependência de financiamento externo é outro grande desafio. Como observa Ngrenhrarati Xikrin, da Associação Bebô Xirin do Bacajá (ABEX), “as empresas locais precisam ser estruturadas para serem autônomas, e todo o apoio de parceiros e financiadores deve trabalhar nesse sentido, para que elas não caiam nos mesmos padrões de dependência observados em muitas organizações de base”. Isso ressalta a importância de mecanismos de crédito e investimento adaptados às necessidades específicas das empresas de sociobiodiversidade na Amazônia.
“As empresas locaisprecisam ser estruturadas para serem autônomas, e todo o apoio de parceiros e financiadores deve trabalhar em prol desse objetivo, para que elas não caiam nos mesmos padrões de dependência observados em muitas organizações de base.”
Nesse contexto, as empresas de socioeconomia devem reconhecer e fortalecer a liderança feminina. Em seu trabalho de aceleração e investimento no Brasil, NESsT se concentrado em apoiar as empresas para formalizar e remunerar de forma justa a participação das mulheres no setor.
Como Cairo Bastos, líder do Programa NESsT , destaca: “do ponto de vista econômico, incluir as mulheres na força de trabalho é fundamental para ampliar a produção e a comercialização de produtos florestais. O envolvimento delas também é essencial para evitar modelos verticais impulsionados exclusivamente por perspectivas masculinas, ajudando a promover uma governança mais democrática e sustentável”.
Ele observa ainda que “apoiar as mulheres na socioeconomia da Amazônia por meio de treinamento, oportunidades de liderança e geração de renda promove a igualdade de gênero, fortalece a conservação ambiental e promove o desenvolvimento sustentável na região”.
“Apoiamos as empresas no fortalecimento do papel das mulheres na socioeconomia da Amazônia, oferecendo oportunidades de treinamento, liderança e geração de renda. Vimos em primeira mão como isso promove a igualdade de gênero, impulsiona a conservação ambiental e melhora o desenvolvimento sustentável da região .”
O reconhecimento das contribuições das mulheres também traz benefícios sociais mais amplos, incluindo maior segurança alimentar, melhor acesso a recursos financeiros e redução das desigualdades estruturais. As empresas e as políticas públicas que apoiam ativamente a participação das mulheres desempenham um papel vital na criação de um futuro mais inclusivo e resiliente para a Amazônia, garantindo que os benefícios da socioeconomia sejam compartilhados de forma mais justa.
Investir na capacitação e no acesso ao mercado para mulheres empreendedoras abre caminho para o fortalecimento das cadeias produtivas locais e o aumento da competitividade dos produtos amazônicos.
Foto: Empresa NESsT , ATAIC
Essa inclusão garante que o conhecimento tradicional e as inovações locais sejam valorizados e ativamente integrados ao mercado, promovendo uma socioeconomia mais diversificada e sustentável.
Para alcançar esse objetivo, são necessárias medidas práticas: criar opções de financiamento mais acessíveis, ampliar a formação técnica e garantir que as mulheres tenham voz ativa nos espaços de tomada de decisão.
Como o avanço do papel das mulheres pode contribuir para fortalecer a socioeconomia na Amazônia e, por sua vez, como uma socioeconomia próspera pode reforçar o empoderamento das mulheres? Nosso diversificado portfólio de empresas de socioeconomia no Brasil nos oferece exemplos reais dessa dinâmica em ação:
As mulheres em cargos de liderança em cooperativas e empresas sustentáveis impulsionam a produção e aumentam o impacto socioeconômico das comunidades, ao mesmo tempo em que fortalecem as cadeias de valor da biodiversidade.
As mulheres são fundamentais para preservar e transmitir conhecimentos sobre o uso sustentável da biodiversidade em suas comunidades, especialmente na agrossilvicultura e no extrativismo responsável.
As mulheres empresárias frequentemente reinvestem na educação e saúde de suas famílias, contribuindo para a estabilidade social e econômica de suas comunidades, ao mesmo tempo em que promovem oportunidades de subsistência sustentáveis.
Aumentar a participação das mulheres nas conversas sobre tomada de decisões leva a uma gama mais diversificada de produtos e à criação de novos bens sustentáveis que podem ser vendidos nos mercados nacionais e internacionais.
Programas de empoderamento direcionados apoiam as mulheres a acessar oportunidades de investimento e obter certificações, permitindo que seus produtos alcancem mercados de maior valor.
Foto da capa: ASSOAB © Bruno Kelly
Você pode acessar o estudo e as recomendações detalhadas NESsTabaixo em inglês, português e espanhol:
Este blog faz parte de uma série que explora as percepções, os principais temas e as abordagens que orientam a publicação da NESsT'Unlocking the Potential of the Global Financing Ecosystem to Invest in a Sustainable Bioeconomy in the Amazon from the Perspective of Local Communities' (Desbloqueando o potencial do ecossistema de financiamento global para investir em uma bioeconomia sustentável na Amazônia sob a perspectiva das comunidades locais). Com base nas vozes amazônicas e em conversas com a comunidade financeira global, o relatório identifica nove recomendações em duas áreas principais para que investidores públicos e privados focados no impacto melhorem o direcionamento, a eficácia e a eficiência de seus financiamentos para a bioeconomia amazônica. Por meio desta série de dez partes, pretendemos trazer essas oportunidades para conversas mais amplas e diversos espaços de discussão, ampliando o alcance das comunidades amazônicas e suas vozes, experiências e soluções.

